Brasília: Adega Don Raphael, onde o garçom ri quando a gente aparece
A Adega Don Raphael é um caso de amor antigo...Conheci a adega quando ainda estava na faculdade, meu namorado – que, hoje, é meu marido – costumava me levar lá para programas românticos a dois. A ideia de sentar-se à mesa nos corredores do piso térreo do Cine Centro São Francisco (alguns biombos preservam a privacidade e proporcionam “um clima” na adega), apreciar uma ou várias garrafas de vinho à luz de velas e pagar pouco na conta sempre foi sedutoramente adequada ao orçamento de estudantes.
Digamos que a carta de vinhos e o cardápio não são refinados, mas considero ser essa a chave para o aconchego do lugar. O proprietário da adega, Paulo, contou que iniciou o negócio em 1980. Desde então, nunca mudou de endereço. Perguntei a razão da escolha do nome e ele respondeu que incialmente eram 5 sócios. Para que a adega não levasse o nome de nenhum deles, escolheram Don Raphael. E foi isso!
Diz a lenda que a cena brasiliense do rock dos anos 80 acontecia na adega. Renato Russo, Dado Villa-Lobos, Dinho Ouro Preto e outros mais circulavam por lá depois dos shows.
Paulo disse que os clientes começam a namorar na adega e, quando casam, costumam desaparecer. Nas situações de separação, antigos clientes retornam com novos/as namorados/as. No meu caso foi diferente. O tempo passou desde as primeiras idas à adega, Dirceu e eu começamos a trabalhar, nos formamos, estudamos novamente, nos casamos, a adega continua fazendo parte da nossa vida em alguns finais de semana.
Nos últimos anos, apresentamos o lugar para os amigos mais íntimos e, sempre que vamos de galera, o recanto dos amantes vira um furdunço! As histórias no lugar são inúmeras.
Da última vez que fomos, estávamos em 3 casais. Todos moramos na Asa Norte (Brasília) e ficou decidido que iríamos de ônibus e de metrô, respeitadores da Lei Seca que somos. A adega fica no início da Asa Sul. É certo que não precisaríamos pegar o ônibus e o metrô. Depois que fizemos os cálculos, concluímos que sairia mais barato ir de taxi. Enfim, o barato foi a odisseia enfrentada para chegar ao destino baconiano.
Chegando lá, deparamo-nos com uma figurinha carimbada do lugar, o homem que sempre encontramos apreciando seu vinho em pé no balcão. Tento lembrar se alguma vez não o vi, mas só me lembro de ele estar por ali. Certa vez, perguntamos ao Paulo se era um cliente assíduo. Ele respondeu que o homem vai todo santo dia! O caso de amor dele com a adega certamente é mais intenso e duradouro que o nosso.
Pois bem, o Cine Centro São Francisco estava em obra, com um barulho terrível, e era a primeira vez de um dos casais na adega. Uma briga estava sendo ensaiada no bar na entrada do prédio – ah, fiquei sabendo pelo Toninho que neste bar vendem a cerveja mais barata de Brasília! –, pensei que a noite iria degringolar.
Eis que acontece o de sempre na adega, em certo momento, o teor alcóolico aumenta a ponto de cantarmos os grandes sucessos: a velha e boa MPB da programação da rádio Nova Brasil FM. Em determinada hora, rolou até a gravação de um vídeo-caseiro-suspeito embalado pelas marretadas da obra e pelo hit do momento: ♪ ♫ “Ah Lelek Lek Lek Lek...” ♪ ♫
Seguido a isso: pão com azeite, mais uma garrafa, água, olhares desalentadores dos namorados pela confusão que aprontamos, banheiro apertado, mas limpo (ufa!), olha o homem que sempre vem aqui, o vinho da casa é Mioranza?... ♪ ♫ ♪ ♫ ♪ ♫ “Vim tanta areia andei. Da lua cheia eu sei. Uma saudade imensa. Vagando em verso eu vim. Vestido de cetim. Na mão direita rosas vou levar.” ♪ ♫ ♪ ♫ ♪ ♫
Foi nessa última visita à adega que resolvemos voltar para casa de madrugada caminhando. Passamos por baixo dos eixos e testemunhamos a lavagem da estação de metrô, seguimos pelas quadras residenciais da Asa Sul, Setor Bancário Sul, rodoviária com a linda vista da Esplanada, Setor Bancário Norte, quadras residenciais da Asa Norte. O trajeto todo foi de uns 6 Km. De manhã? Bem, dessa vez, não foi só a cabeça que doeu, pois nossos pés também reclamaram. Um Gatorade, por favor!
Teve outra vez, sobre a qual é melhor não comentar os detalhes, que a noite terminou com tombos e risadas e com o tímido garçom (o único e o mesmo já faz um bom tempo) acudindo as damas. Dos detalhes, que é prudente não esmiuçar, surgiu expressão facial ímpar do garçom, que se repete em todas as nossas idas de ali por diante.
A Adega Don Raphael, com seu cliente fidelíssimo e sua atmosfera romântica, é o lugar onde o garçom ri quando a gente aparece!
Adega Don Raphael
Endereço: EQS 102/103, Cine Centro São Francisco, Térreo, Loja 101
Telefone: (61) 3225-5307
E-mail: adegadonraphael1980@yahoo.com.br
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