Peru: Puno e Lago Titicaca, diário de bordo

Série "Dú" Perú

Ao tomar o trem Andean Explorer de Cusco a Puno, imaginei que o restante de minha viagem pelo Peru seria OK. Depois de Lima, Cusco, Aguas Calientes e Machu Picchu (!!!), decidi zerar minhas expectativas para a ida ao Lago Titicaca, uma vez que já tinha passado pelas grandes atrações peruanas.

Sillustani

Eis que fui surpreendida! As ilhas flutuantes de Uros, no Lago Titicaca, foi um dos lugares mais emocionantes que já visitei. A história de resistência de povos pré-incaicos é impressionante e as condições de vida no local me fizeram refletir sobre a importância da preservação da cultura na vida daquelas pessoas.

A viagem no Andean Explorer valeu a pena em todos os sentidos, apesar de ter considerado o ticket caro (paguei US$210, em julho de 2012). O trem é confortável, as refeições servidas estavam deliciosas, o serviço foi impecável e o trecho viajado – de aproximadamente 10 horas, com algumas paradas – é repleto de paisagens maravilhosas. Ainda na estação, fomos recebidos por um grupo muito bom de música regional e usufruímos dessa agradável companhia até Puno.

Eu diria que as atrações apresentadas durante o percurso não são grandes coisas, com exceção dos músicos e das aulas de como se preparar drinks com pisco, mas o vagão mirador do trem compensa qualquer desfile de moda que possa acontecer. Há, ainda, um coffee shop no vagão mirador. Os produtos vendidos no coffee shop são pagos à parte, não estão incluídos no preço do ticket.

Uma das paradas do trem

Nossa viagem atrasou em mais de 3 horas, pois os professores peruanos estavam fazendo uma paralização em boa parte do país, em protesto aos baixos salários e condições de trabalho. Em virtude disso, ficamos parados em alguns trechos, pois a liberação dos trilhos teve que ser negociada com os grevistas. No final, tudo correu bem e a empresa ofereceu aos passageiros um lanche-quase-jantar por conta do horário de chegada tardio a Puno.

A incursão ferroviária foi especialmente curiosa para meu marido e eu, pois reencontramos uma família que conhecemos em uma das visitas em Cusco. Pai, mãe e filha – que falavam um idioma que não conseguimos identificar – viajavam com o marido da filha (o genro) e um bebê (a filha do casal mais jovem). Desde Cusco, havíamos entendido que o genro é peruano e estava orgulhoso em mostrar seu país à esposa e aos sogros.

Eles conversavam em inglês entre si e ouvimos, mais de uma vez, os sogros reclamando da falta de trabalho do genro. No passeio em Cusco, o genro tocou, em diversas ocasiões, uma concha “peruana” e fazia questão de sair da rota orientada pelo guia. Afinal, ele é local e parecia não querer seguir regras ditadas aos turistas.

No trem, eles estavam sentados atrás de nós, o clima entre a família era de muita tensão e ouvimos a concha “peruana” quase a viagem toda no vagão mirador. Em algum momento, no coffee shop, o genro peruano propôs um brinde à esposa e anunciou que eram recém-casados. Daí, pude entender o “climão” instalado, imagina sair em lua-de-mel com a filha bebê e os sogros? Pior, parece que em Cusco eles estavam hospedados todos no mesmo quarto.

Deixando de lado o espírito fofoqueiro que tomou conta de mim... Chegamos a Puno à noite e adoramos o nosso hotel, o Casa Andina Classic Puno Tikarani. Na manhã seguinte, passeamos pelo centro da cidade, nada demais. Tomamos café em um lugar muito doido, o Pacha Mixology Bar. Apesar de barato e de ter um ar “místico”, o café estava ruim. Recomendo não ir a esse local, definitivamente.

Depois da “experiência” do café, insistimos em conhecer Puno, o que foi bom para concluir que ela só tem algum movimento turístico por causa do Lago Titicaca. A cidade em si tem poucos atrativos. À tarde, visitamos um sítio do período pré-incaico chamado Chullpas Sillustani. Trata-se de uma zona arqueológica composta por torres funerárias construídas de pedras para os mortos da cultura Aymara. Nosso guia é um xamã e nos contou diversas histórias interessantes sobre os significados das construções no local.

Casa de família na estrada de Sillustani a Puno

Apesar da história e da paisagem de Sillustani, nada superou a visita que fizemos a uma casa na beira da estrada entre Sillustani e Puno. Fomos recebidos pela família, pelos animais da casa, pelos alimentos e pelo artesanato produzidos ali. Foi nesse lugar simples e aconchegante que experimentamos a “maionese” de terra com batata (o significado disso para eles é que a ingestão da Pachamama – a mãe terra – te livra de muitos males), um dos melhores queijos frescos da minha vida e uma deliciosa fritura de quinoa. Ah! A "maionese" tem gosto de terra molhada, nem adianta querer poetizar! Na volta para casa, à noite, estava bem frio e decidimos jantar pizza (muito boa!) no hotel mesmo.

No outro dia, levantamos às 6h para pegar o barco para as ilhas flutuantes de Uros e para a Ilha Taquile. O passeio durou o dia todo e foi um pouco cansativo, o barco adentrava e adentrava o Lago Titicaca, e nada de chegarmos à Ilha Taquile. Ele é conhecido por ser o lago navegável mais alto do mundo; em extensão, é o segundo maior da América Latina. Além disso, de acordo com a mitologia inca, foi dele que saíram os filhos do deus Sol, considerados os fundadores do Império Inca. É importante levar dinheiro, pois não há a possibilidade de usar cartões ou sacar dinheiro nesses locais.

Nas ilhas flutuantes de Uros, fomos recebidos pelo presidente do local, o José. Foi ele quem explicou como as ilhas são construídas e administradas. As condições de vida nas ilhas, feitas de totora, não são nada fáceis, mas sua singularidade é admirável. A aula que José nos deu deixou claro como a manutenção da cultura, mesmo com todas as dificuldades inerentes à localidade em que se encontram, é elemento central na vida desse povo.

É possível carimbar seu passaporte por uma pequena taxa e passear nas embarcações construídas de totora. Lembre-se de comprar uma peça do artesanato local como forma de retribuir a hospitalidade desse povo e de contribuir para a economia de Uros.

Uros
Almoço em Taquile








Em seguida, partimos para a Ilha Taquile, onde desfrutamos de dança e comida típicas. Aqui também tivemos a oportunidade de conhecer sobre a história do local e entendermos o registro da vida em Taquile por meio de tecelagem primorosa. Desde criança, homens e mulheres aprendem o ofício e aperfeiçoam a técnica ao longo da vida. É como se os livros de história do lugar fossem escritos em pedaços de tecido.

Desfrutamos de um dos melhores almoços da viagem na casa de uma das famílias, em grande mesa debaixo de uma tenda. Simples, delicioso e colorido. O passeio pela ilha exige certo grau de esforço, pois há trechos íngremes, mas vale a pena. À noite, já de volta a Puno, o frio e o cansaço se juntaram para nos fazer jantar no hotel.

Na manhã seguinte, fizemos o check out no hotel e resolvemos caminhar por Puno uma vez mais, antes de seguirmos de ônibus para Arequipa. Fomos a um dos miradores da cidade e retornamos ao centro para almoçar. Nossa escolha, o restaurante La Casona, foi motivada pelo simpático senhor que estava na porta do estabelecimento convidando as pessoas a entrar. Recomendo fortemente uma espécie de risoto de quinoa com queijo andino e peixe grelhado. Além da comida maravilhosa, o restaurante tem um ambiente confortável e aconchegante. Se possível, peça a mesa que fica ao lado da janela que tem vista para a rua mais movimentada da cidade.

Do almoço, fomos para a rodoviária e, no post sobre Arequipa, finalizo as dicas sobre o surpreendente e encantador Peru.

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